Mil novecentos e setenta e seis. Nasce no verão quente de janeiro um grande experimentador da vida: Ederózio. Fez de tudo. Teve muitas mulheres. Porém manteve um relacionamento conturbado com uma manicure chamada Nice.


Nossos olhos se encontraram, depois os lábios. Ela abre os lábios para o beijo suave e rápido. A minha língua sorve o doce orvalho de sua boca. Jogo-a para trás e começo a percorrer o corpo dela com a minha língua. Itinerários em curvas e retas. Abre as pernas. Beijo os lábios ardentes como pimenta. Começo a lamber os lábios, trabalho com a língua ali por um bom tempo. Sinto os lábios tão ardentes quanto os da boca. Parece pimenta. Ouço os gemidos. Ela pede para penetrá-la. Entro no seu mundo, na sua pérola. Movimentos e malabarismos. Beijo-a e misturo os fluídos, enquanto, no vaivém, entro mais até ela gemer. Ela pede pra sentar. Senta e cavalga enlouquecida. E no vaivém estonteante, ela goza, e goza, e simultâneamente, inclina o corpo e morde o meu peito, arrancando pedaços de carne. Depois relaxa no meu peito e tenta lembrar dos nomes dos fortes temperos da janta.Chimichurri, gengibre, curry. E muita pimenta. Dos outros temperos não recorda o nome.

Tudo começou quando participei como representante da editora em que eu trabalhava, num congresso de biologia em Florianópolis. E lá estava ela. Morena, linda, charmosa, e de óculos. Sempre gostei de mulheres de óculos. E ela, Lídia, a bióloga, a mais bela de todas.
Teses, trabalhos e debates. No final das atividades, o professor Péricles, meu amigo e por coincidência, amigo de Lídia, nos apresenta, conversa um pouco, e sai.
Aproveito aquele momento para convidá-la para sair. Peço uma sugestão, já que ela nascera em Floripa e conhece quase todos os bares da cidade.
“Nem todos os bares, mas posso ser sua cicerone.” Ela diz sorrindo.
Chopperia Absoluto. Entre um chope e outro, ela falava do seu trabalho. A microbiologia clínica, bactérias, fungos e microcultivos. Mostrei-me interessado e entendido no assunto.
Lídia tece uma interminável trama de perguntas, mas respondo apenas que trabalho na editora - como ela já sabe -, adoro literatura, almejo ser escritor e estou deslumbrado com a sua beleza.
Ela fica um pouco ruborizada, e fala de literatura – principalmente de Cortázar –, mas o que mais gosta é de cinema. Todos os filmes do Almodóvar.
Quando ela recupera a cor, morena, tipo cuia, fala baixinho e com graça, fazendo-me perder no labirinto de suas expressões. Primeiro sorri delicadamente, depois mexe nos cabelos e me olha com tamanha profundidade nos olhos.
Rendo-me ao olhar penetrante de Lídia, e com os efeitos sedutores da bióloga, tomo a iniciativa, dando-lhe um beijo desesperado e cheio de desejos.
O resultado foi uma noite interminável, quente e prolongada, no apartamento da bióloga.
Jamais vou esquecer daquela cena maluca e deliciosa, quando nos arremessamos feito crianças na cama ampla, rolamos para várias direções enquanto nos beijávamos gulosamente. E depois labidas, sussurros, vaivém com gemidos e gozos intermináveis.
Era um olhar que falava mais que palavras. Era provocante.
Nos lábios, o batom vermelho insinuante. Pele morena e de óculos. Os cabelos escorridos nos ombros. As botas de salto alto e cano longo. Sedutora.
Terceira Barrolda e a reciprocidade do nosso olhar. Somos todo desejo. E falo com ela de desejo, paixão e fantasia. E nestas circunstâncias de um final de tarde de Porto Alegre, anseio sentir o mais profundo prazer com Bianca.
“Estou com vontade de beijar todo o teu corpo e...”, eu disse pra ela.
Pausa. Depois tomei o restante da quinta Barrolda.
“Quê mais?!”, ela sorriu maliciosamente.
“Tudo”, eu disse. Já não aguentava mais. Ela continuou sorrindo. Sempre sorria. Estava feliz. Estávamos felizes.
“Vamos pro motel”, eu falei com tanta vontade.
“Agora?” Ela pergunta como se eu precisasse convidar ou argumentar várias vezes.
“Sim... Motel...”
Saímos do Naval. Tomamos um táxi direto para o Motel Botafogo.
***
No Botafogo, enquanto eu ia ligando o ar quente e colocando um som pra gente escutar, Bianca foi ao banheiro. Quando voltou fiquei deslumbrado ao ver aquela Gata de Botas em que Bianca se transformara.
Felina. Sutiã, calcinha, rabinho, focinho, tudo de gata. E com aquelas botas de salto alto e cano longo. Desfilava pelo quarto miando como uma gata no cio.
Fiquei completamente louco. Fora de controle.
Ela me empurrou pra cama.
“Fique quietinho aí que vou desligar nossos celulares”, ela disse saindo imediatamente dali.
Voltou com o meu celular na mão, sem a fantasia de gata, gritando, xingando...
“Quem é essa vagabunda?” Ela perguntou com raiva.
“Que vagabunda, meu amor?” Eu quis saber.
“Essa tal de Laura.” Ela disse com um olhar sagaz.
“É a estagiária lá da firma. Eu sou o chefe dela. Eu já te falei sobre isso, esqueceu meu amor?” Eu disse querendo convencê-la de que não tinha nada de mal nisso.
Eu e Bianca ficamos desfiando aquele rosário de interjeições. Então me aproximei dela, a abracei com ternura, esfreguei meu rosto no rosto de Bianca e senti a lágrima salgada nos meus lábios. Beijei Bianca intensamente. Ela quase não conseguia respirar.
Depois daquele beijo, Bianca levantou da cama e foi ao banheiro. Voltou com a fantasia de gata e sorriu.
“Vem minha Gata de Botas, vem...” Eu disse, já deitado na cama, com as luzes de boate em volta.
“Que mais que eu sou?”
“Minha boceta de botas”, eu disse.
Bianca veio e foi uma loucura. O coro de gritos como pano de fundo e sonoplastia. E posições e gemidos e Kama Sutra e Gata de Botas e Boceta de Botas e Meu Tesão e Minha Fêmea e Meu Macho e Secreções e Substâncias do Amor, Meu Amor, Meu Amor, Nosso Amor...