domingo, 30 de maio de 2010

Shakespeare, tragédias, amores

Econtrei Bianca imóvel na cama. Estava com os olhos estáticos, direcionados a um ponto fixo na parede. Não falava nem se mexia. Parecia estátua. Virgem pálida.

Sentei na beirada da cama e os meus pensamentos e levaram ao passado.

Foi no intervalo da faculdade. Eu estava indo à biblioteca, pensando nos livros que precisava pesquisar.

Distraído, esbarro numa notável menina.

Peço desculpas.

Olho com atenção para a vítima desse incidente. Vejo que está está calma e sorri para mim. Parece uma menina de uns quinze anos. Saia azul-marinho, blusa branca, meias três-quartos.

Torno a me desculpar.

Ela diz que tudo bem, que às vezes estamos no mundo da lua.

Risos.

Nossos olhares se encontram.

Perco-me nos seus olhos azuis.

Ela se apresenta como se estivesse respondendo a uma entrevista:

- Bianca, 19 anos, signo de leão, faço artes cênicas.

- Dalton, 29 anos, dublê de poeta, empresário e estudante de direito, falei, entrando na brincadeira.

Fui arrebatado pela beleza de Bianca. Atingido pela seta de Cupido. Penetrou na alma. Feriu. Infeccionou. Fiquei doente. Pela primeira vez me apaixonei de verdade.

Nunca mais consegui esquecer a bela Bianca. Todos os momentos que passamos juntos. No teatro, os ensaios nos quais eu ficava impaciente e com um torturante ciúme quando ela representava cenas íntimas.

A primeira vez que nos beijamos. Foram beijos de sugar a vida.

Nossos longos passeios pelos cinemas e barzinhos. Nossos piqueniques românticos. Jantes à luz de velas. As cartas de amor que ela me escrevia. Os poemas que eu fazia para ela.

Amei Bianca intensamente. Tanto que não percebi horas, dias, meses, anos, décadas que se passaram. Amor intenso...

Agora Bianca estava ali, linda como sempre. Sem mover um só músculo, naquela cama. O nosso ninho de amor.

Minha adorável Bianca! Não diz uma única palavra. Sem mover o maravilhoso sorriso nos lábios.

Está gélida, tesa, inerte.

Com minhas mãos trêmulas, pego Bianca nos braços.

Fale comigo, meu amor!

Shakespeare. Tragédias. Amores.

Somos tão jovens para dizer adeus...

Shakespeare. Tragédias. Amores.

Shakespeare martelando minha cabeça. Abandone-me solidão, quero meu amor de volta. Shakespeare. Tragédias. Amores.

Mil imagens em minha mente e a cabeça latejando sem parar.

Shakespeare. Tragédias. Amores.

Saio do quarto e em poucos minutos retorno com o revólver na mão.

Shakespeare. Tragédias. Amores.

Vou encontrar meu amor...

Despenco dilacerado. Começa a ficar escuro...


quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Tatuajes en mi cuerpo

Aguardo que vuelves del trabajo para decir que te quiero. Invitarla al bar donde leemos nuestros autores elegidos y tomamos cerveza y fumamos narguile y a veces nos quedamos un poco borrachos.

Los recuerdos de nuestra historia no es sencilla, pero notable. Yo sé que leerbesarleer es nuestro lema. Mientras, tenemos siempre el antes y después. Yo me gusta lo que está entre el antes y después.

Recuerdo la primera vez cuando llegaste, eres un ángel caído del cielo. No necesitábamos de “ese es Júlio” y “esa es Maga”, supimos todo. Nadie dijeron. Saber sin saber, con sonrisas y miradas.

Nuestro encuentro en la noche. Un baño rápido y un táxi na esquina. Llegué antes, y tu venías con sonrisa muy lindo y una impresionante mirada. Abrazos, cumprimentos y besos en la mejilla. Y cervezas y miradas penetrantes. Y diálogos a respeto de autores y obras y peliculas. Y imaginaciones.
Una lluvia tranquila en el fin de la noche. Y una calle mojada y besos mojados fuertes y salvages. Saliva y lluvia.Tu bello vestido negro mojado. Besos y carícias. Y tu siempre linda.

En apartamiento viño, carícias y Chico Buarque. Recuerdo que habías mordido mi cuerpo dejando señal como tatuaje, y lluego hicimos el amor en el sofá de la sala.

Tu venias siempre con los dientes, haciendo más tatuajes en mi cuerpo. Estabas muy salvage.

Ahora estoy sólo y aguardo que vuelves del trabajo para decir que te
quiero.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Desliguei Zé Ramalho e saí

Conheci os inferninhos de Porto Alegre através do Oberdan, um estudante de educação física. E foi o personal barriga, aquele pançudo, quem nos apresentou esse cara.
Bebíamos num quarto da Ceuaca. Quando acabou a cerveja, fomos direto para os tais inferninhos. Oberdan escolheu a boate Metrópolis. Era amigo dos porteiros. Entrada franca garantida.
Naquele lugar não dava quase pra se mexer. Mas o bom disso é que tinha mulheres gostosas e grupo de garotas dançando de forma desvairada. E algumas de amassos com uns caras com pinta de pagodeiro.

Pra chegar até a copa foi uma eternidade. Daqui não saio, pensei.
Entre um gole e outro de cerveja, trocava olhares com as garotas. As acompanhadas me encaravam com malícia provocadora, mas eu fazia de conta que aquilo não era comigo. As putas estavam com seus machos e davam mole pra mim. Eu não queria apanhar dos homens delas.


Com o tempo não tínhamos mais cerveja, tampouco dinheiro pra pedir mais. Oberdan foi beber como alguns conhecidos dele. Fiquei ali, observando as mulheres.
Uma negra daquelas turbinadas olhou pra mim e sorriu convidativa. Entrei de sola, como dizem no futebol.

Bebi por conta do irmão dela. E vez em quando eu apalpava e dava uns beijos naquela gostosa.


Eram seis da manhã e já estavam fechando a Metrópolis. Eu tentei convencer a negra para ir comigo lá pra Ceuaca. Eu queria levar a mulher para o quarto do Oberdan, mas ela não quis ir. Sugeriu que fôssemos a um motel da Bento Gonçalves.
E não vai se acostumar, ela disse. Descemos do táxi em frente ao motel Magrife. Quando estávamos na portaria ela tirou o cartão de crédito e passou naquelas máquinas. Cartão inválido. E agora?, perguntei. Eu tenho dinheiro comigo, ela falou com orgulho. Ela confere na carteira o dinheiro. Tira uma nota de cinquenta. Treze, disse o porteiro. Quarto número treze. Era um dos quartos mais vagabundos e baratos daquele motel. Ao lado da cama, uma mesa de cabeceira com um microsystem do Paraguai em cima. Liguei o som e me joguei na cama. Zé Ramalho... Estava tocando a música “Entre a serpente e as estrelas.” Ela ficou ali em pé diante da cama me olhando, enquanto Zé Ramalho cantava.


“... e ninguém tem o mapa da mulher.../ ninguém sai com o coração sem sangrar, ao tentar revê-la...” O que é isso, mulher?, perguntei. “... um ser maravilhoso entre a serpente e a estrela...” Pare de chorar!, eu disse num grito. “ ... e os dois lado a lado, corroem o coração...” Já disse para parar de chorar e vir pra cama! “... não existe saudade mais cortante que a de um amor ausente...” Vem pra cama e dá uma chupadinha... NÃAOOO!!! Ela passou a manga da blusa no rosto para enxugar as lágrimas... Então bate umazinha pra mim, pedi. Ela olhou com raiva pra mim e chegou a cuspir no meu rosto ao falar essas palavras: VAI TE FUDER, SEU FILHO DA PUTA!!! Saiu do quarto e bateu a porta. Desliguei Zé Ramalho e saí.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Ele sentia a vida pulsar em várias direções

"o caminho do crime o atrai
como a tentação de um doce
Era tido como um rapaz,
foi quem foi..."
(Rubro Zorro - Ira)



Mil novecentos e setenta e seis. Nasce no verão quente de janeiro um grande experimentador da vida: Ederózio. Fez de tudo. Teve muitas mulheres. Porém manteve um relacionamento conturbado com uma manicure chamada Nice.

Ederózio e Nice viveram por muitos anos entre o amor e o ódio. Amavam-se intensamente, porém as brigas rotineiras, os escândalos que perturbavam a vizinhança, fez com que ele colocasse um ponto final no relacionamento.

Ele sentia a vida pulsar em várias direções. Não queria parar. O negócio dele era o seguinte, viver o dia como se fosse o último, mesmo que com consequências drásticas.

Num dia como qualquer outro, Ederózio briga com o pai – único parente vivo – por ressentimentos que guardara consigo desde a infância. Depois de colocarem os podres para fora, o velho tem um ataque fulminante e morre.

Já estava de saco cheio mesmo. Resolveu esquecer de vez os problemas familiares, o amor louco que tivera por Nice, e viver a vida do seu jeito.

Desempregado, sem dinheiro para pagar o aluguel do apartamento, e sem gasolina no Opala Diplomata. Em contrapartida, Zé Carlos e sua Garagem Gigante, facilitaram a vida de Ederózio.

De noite, era o gato pardo, que fazia e acontecia. De dia, virava uma espécie de vampiro no banco de trás do Opala Diplomata. Assim era a vida de Ederózio, até que sua vida pulsou pra valer...

Wolverine e os X-Men, Incrível Hulck, o mascarado Fantasma, O Cobrador, o Velho Safado e todos os seus sonhos, todas suas histórias e leituras e filmes reviravam-se em seus pensamentos agora.

Com dinheiro no bolso, e mais no porta-malas e o tanque do Opala Diplomata cheio, o coração a mil, Ederózio pisava fundo. Cento e dez, cento e vinte, cento e trinta, cento e cinquenta, cento e oitenta, ele sentia a vida pulsar em várias direções. Mas agora ali dentro do Opala só tinha uma direção, o túnel escuro. E ele pisava tudo que dava e num instante fechava os olhos e deixava-se seguir. Desse o que desse.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Você não vai trazer ela de volta

O dia amanheceu e os dois aproximam-se do quarto, encostam o ouvido à porta. Escutam que Jean está acordado.
Um deles bate e insiste para Jean abrir.

"Isso é besteira. Há cinco dias está trancado nesse quarto, precisa parar de beber, carece de ajuda. Se continuar assim vai adoecer e complicar ainda mais as coisas, e você não vai trazer ela de volta."
Jean sente solidão, angústia.

Eles não vão desistir, querem que Jean saia do quarto.

Jean tem vontade de gritar.
Batem mais uma vez na porta.

Por um instante, total silêncio...

Os dois dão um tempo, pensam possibilidades de tirar Jean do quarto. Saem e em vinte minutos retornam com um chaveiro. E o homem com chaves de vários tamanhos abre a porta em menos de cinco minutos.
Sem forças Jean desaparece com as últimas palavras:

"Você não vai trazer ela de volta..."

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Minha Ilha

Ontem reli Kafka e chorei. Não consegui segurar as lágrimas que iam me escapando. Aproveitei e fugi para a minha Ilha. É solitário, angustiante às vezes, mas na minha Ilha há reminiscências de outros tempos. Tenho um acerto de contas para fazer e preciso pensar, localizar melhor os fatos passados. E as atitudes.

Sozinho na minha Ilha. Sinto um buraco no peito. Enquanto isso, milhares de imagens invadem minha mente.

É Natal. Uma criança de três ou quatro anos, a mãe e os irmãozinhos esperam avidamente pelo pai que está longe de casa há dias. O pai retorna à casa com presentes para as crianças. A criança de três ou quatro anos ganha uma cadeirinha cheia de doces e com a seguinte frase talhada na madeira: “Eu sou do papai.” A criança de três ou quatro anos fica imensamente feliz e agarra-se aos pés do pai que a empurra para o chão e vai para o quarto com a mãe. A criança de três ou quatro anos fica chorando, sentada num canto da sala, enquanto as outras crianças pulam e divertem-se com seus presentes. O pai e a mãe permanecem por duas horas no quarto e depois saem. Ele despede-se de todos e diz que vai ficar fora por uns tempos.

Nenhuma data precisa. Apenas dias e anos significativos. O menino anda solto, livre em suas peripécias. Banha-se na sanga, localizada nas terras do Chimitão. A água é poluída, mas sente-se alegre e faz festas com os dejetos do córrego. Jogos de futebol no campinho e surra durante o jogo. Nariz sangrando. Em casa, mais surra e vergões na bunda e nas costas. O menino está sendo levado pela irmã maior à casa da tia. No caminho, ao atravessar a rua, o menino solta-se das mãos da irmã e é atropelado por um Monza. É levado ao hospital e fica bem. Ganha uma bola de futebol do homem que conduzia o carro que o atropelou. Logo poderá jogar futebol com sua bola nova, sozinho, sem apanhar.

O menino está crescendo. Quase um homenzinho. Depois de anos o pai aparece com um tio. Traz consigo uma caixa de ferramentas para construir uma peça de alvenaria. O pai permanece na casa por uma semana, ajudando o tio na construção. O menino se encanta com as ferramentas. Aproxima-se aos poucos dos homens com uma inifita curiosidade.

“Sai daí guri, vá brincar em outro lugar”, diz o pai com rudeza para o filho. O menino continua do mesmo jeito ali, como que hipnotizado pela peculiaridade daquelas ferramentas.

“Sai daí guri!” O menino não entende nada de horizontais ou verticais, ou medição de distância, mas pega um prumo e começa a brincar. Suspende pelo cordel o peso de formato de peão. Depois senta no chão de terra vermelha, olha por um longo tempo o peão e vê que tem uma rosca. Abre o peão e tira os chumbinhos de dentro. O pai vê o que o menino faz e se enfurece. Grita com ele e, em seguida, desfere-lhe pontapés com ira. Apanha do chão uma espia de aço e a faz de chicote. Três ou quatro chicoteadas nas pernas e na bunda do menino até verter sangue. As pernas e a bunda, com o tempo, cicatrizam. A raiva do menino pelo pai, não.

Todos velavam o pai com tamanha tristeza e desespero. Não era nenhuma capela, mas o ínfimo galpãozinho dos fundos da casa. As meninas choravam. A mãe e os tios também choravam a perda daquele homem. O menino, não. O menino apenas sorria. As cobras, dentro do caixão, enroladas no pescoço, pernas e mãos do pai. E o menino sorria. Achava o pai lindo, dentro do caixão.

Me dou conta de que estou na minha Ilha, e nada fiz para mudar a situação. O buraco do peito continua. Parece maior. Tenho medo. Preciso me organizar, planejar a memória. Tenho medo que o vendaval venha mais intenso. Tenho medo. E culpa. Do abraço terno que espero desde a infância. Tenho medo das tortas relações e decepções. Tenho medo de me tornar um Gregor Samsa. Medo da imobilidade. Da Metamorfose.

Descobri que na minha Ilha não existe culpa. É nela que posso criar aquilo que gosto, que imagino e o que desejo.

Olho para o mar que rodeia a minha Ilha e digo num tom de despedida as palavras de Kafka: “ ...Eras para mim a medida de todas as coisas...”

domingo, 8 de novembro de 2009

Juntitos lunes, martes, miércoles... pero el sábado nos encanta siempre



Sábado 10 de enero. Tu venías tan deslumbrante despacio en mi dirección. Me llamó la atención ya de lejos por la sensualidad de caminar y su piel morena. Cuando estaba cerca pude veír la sonrisa sorprendente. Tus ojos pequeños y de muchos secretos me fascinaron.

Fuimos presentados. De pronto olvidé mi timidez que jamás tuve, para invitarla a salir. De pronto nos conocemos más, mucho más. Nuestros gustos: literatura, cine, teatro, gastronomía, los bares, los besos, la noche y la luna.

Fue en el sábado 10 de enero cuando empezó ese “carpe diem” de nuestro amor. Primero presentación – como ya dijo –, el encuentro en la Ciudad Baja y después en apartamiento con todas las locuras del amor poético, salvage, pero muy terno.

Y así las cosas ocurrieron con una vehemente energía. Besos y más besos, confesiones, decubrimientos, deseos, pimientas, salsas blancas, viños, Cortázar, mate, leer-besar-leer...

Con leer-besar-leer nos fuimos más adelante. Tenemos noches de insomnio, carícias, secretos y fantasías, y hacemos el amor más precioso y bello.

Todo eso es una muestra del amor latente que nos mantenemos despiertos, teniendo un desenlace de nuestra história feliz. Por eso estoy de acuerdo con tus encantadoras palabras: juntitos lunes, martes, miércoles... pero el sábado nos encanta siempre.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Depois da janta

Nossos olhos se encontraram, depois os lábios. Ela abre os lábios para o beijo suave e rápido. A minha língua sorve o doce orvalho de sua boca. Jogo-a para trás e começo a percorrer o corpo dela com a minha língua. Itinerários em curvas e retas. Abre as pernas. Beijo os lábios ardentes como pimenta. Começo a lamber os lábios, trabalho com a língua ali por um bom tempo. Sinto os lábios tão ardentes quanto os da boca. Parece pimenta. Ouço os gemidos. Ela pede para penetrá-la. Entro no seu mundo, na sua pérola. Movimentos e malabarismos. Beijo-a e misturo os fluídos, enquanto, no vaivém, entro mais até ela gemer. Ela pede pra sentar. Senta e cavalga enlouquecida. E no vaivém estonteante, ela goza, e goza, e simultâneamente, inclina o corpo e morde o meu peito, arrancando pedaços de carne. Depois relaxa no meu peito e tenta lembrar dos nomes dos fortes temperos da janta.Chimichurri, gengibre, curry. E muita pimenta. Dos outros temperos não recorda o nome.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Café com os poetas


Mais um dia findo.... Vou deixando para trás carteiras e sinetas escolares, gargalhadas e gritos débeis e desmedidos. Saio da escola aonde leciono, um tanto cansado, aborrecido e com saudades da minha pequena.
Meus passos andarilhos, que já conhecem o itinerário, levam o coração e os pensamentos sonhadores ao seu destino: Café e Tabacaria Quintanares. Enquanto sigo, só penso em liberdade, descanso, prazer... Vou decidido a não beber nenhum destilado. Somente cafeína acompanhada de tabaco.
Eis a Rua dos Cataventos, número 35. Eis as possibilidades diversas. As portas são amplas e o corredor infinito. Entro no Café e escolho a mesa dois. Peço um expresso duplo. O primeiro cigarro entre os dedos. Aciono o isqueiro e a chama queima a ponta lentamente... Com as primeiras tragadas, desenho nuvens de fumaça que vão me escapando por completo, percorrem o ambiente. Do outro lado, não tenho certeza se é da mesa vinte e dois, está o Poeta soltando as suas nuvens...
A neblina toma conta do Café ... E o Poeta Quintana do outro lado é inconfundível. Fuma seu Marlboro e bebe o pretinho básico...
Mais algumas tragadas e os meus fantasmas encontraram os fantasmas do poeta. As espirais de fumaça dançavam no ar, comunicavam-se numa linguagem de história sobrenatural.
Quintana me dirigiu um olhar lento como uma vagarosa caminhada, apoiado na bengala. Viu através dos meus olhos e expressões, um mar de agitações. Gritos, gargalhadas, carteiras sendo arrastadas e sinetas escolares.
De repente, em meio a fumaça, saltam palavras fugitivas de sonetos por escrever:
- “Quando a água alcançar as mais altas janelas / eu pintarei rosas de fogo em nossas faces amarelas / Que importa o que há de vir? Tudo é poupado aos loucos / E os loucos tudo se permitem. Vamos!”
Então, recebida a mensagem, me senti como o próprio aprendiz de feiticeiro. Desejei aquela arte mágica de conduzir palavras...
O poeta com seu inseparável cigarro, partiu. Foi embora e me deixou ali, reticente. Olhei para o alto à procura de um sinal, um fantasma, outros versos. Não perdi a esperança. Continuei olhando, até que de uma pequena nuvem de fumaça, surge o seguinte recado: “Quando lembrares de mim, evocarás um fantasma. Deixa-me seguir o meu destino...”
Fiquei por um longo tempo, estático, divagando, com o olhar perdido no vazio, e os meus pensamentos, distantes do Café e Tabacaria Quintanares.
Levei um susto da figura excêntrica que se achega à minha mesa, e pede para acompanhar-me num expresso duplo. Era barbudo e tinha um tapa-olho no lado esquerdo. Vestia-se como um nobre da corte portuguesa.
“Meu nome é Luis Vaz de Camões” – disse ele.
Fiquei num completo silêncio. Ele me olhava firme, e esperava alguma palavra minha.
“Na verdade, eu não preciso de mais detalhes na minha apresentação. Me conheces tão bem que os pormenores são dispensáveis” – continuou a figura chamada Camões.
Eu estava completamente mudo diante daquela situação. Tentava falar que eu sabia quem ele era, e que parecia coincidência ele aparecer naquele momento, pois eu havia trabalhado Os Lusíadas com meus alunos, mas nenhum comentário saiu de minha boca.
“Tens uma missão como professor de literatura” – disse ele, me encarando com autoridade.
Realmente, eu nada consegui dizer. Somente ouvia.
“Quero que ensines a verdade sobre a minha vida e obra” – falou com convicção.
Bebeu de um só gole todo o expresso que já devia estar frio. E como se tivesse pressa de ir embora, despejou a sua história num só fôlego:
“Faça com que teus alunos leiam muito. Que leiam os clássicos mais importantes do mundo para entender melhor a minha obra. Ilíada e a Odisseia, Eneida, O Rei Artur e os Cavaleiros da Távola Redonda, A Divina Comédia... E não esqueças de que fui um combatente no Norte da África. Derrotei os Mouros e infelizmente perdi um olho em combate... E por conta disso as mulheres faziam troça de mim. Então, eu escrevi muitos versos, não para combatê-las, mas para conquistá-las.”
Eu permanecia calado.
E, num piscar de olhos, ele desapareceu.
Depois de Quintana e Camões, eu já era outro. 
E caminhando pelas ruas de Porto Alegre só pensava nisso:
- “Tudo já está nas enciclopédias e todas dizem as mesmas coisas. Nenhuma delas nos pode dar uma visão inédita do mundo. Por isso é que leio os poetas. Só com os poetas se pode aprender algo novo.”


segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Inconstâncias



Tudo começou quando participei como representante da editora em que eu trabalhava, num congresso de biologia em Florianópolis. E lá estava ela. Morena, linda, charmosa, e de óculos. Sempre gostei de mulheres de óculos. E ela, Lídia, a bióloga, a mais bela de todas.

Teses, trabalhos e debates. No final das atividades, o professor Péricles, meu amigo e por coincidência, amigo de Lídia, nos apresenta, conversa um pouco, e sai.

Aproveito aquele momento para convidá-la para sair. Peço uma sugestão, já que ela nascera em Floripa e conhece quase todos os bares da cidade.

“Nem todos os bares, mas posso ser sua cicerone.” Ela diz sorrindo.

Chopperia Absoluto. Entre um chope e outro, ela falava do seu trabalho. A microbiologia clínica, bactérias, fungos e microcultivos. Mostrei-me interessado e entendido no assunto.

Lídia tece uma interminável trama de perguntas, mas respondo apenas que trabalho na editora - como ela já sabe -, adoro literatura, almejo ser escritor e estou deslumbrado com a sua beleza.

Ela fica um pouco ruborizada, e fala de literatura – principalmente de Cortázar –, mas o que mais gosta é de cinema. Todos os filmes do Almodóvar.

Quando ela recupera a cor, morena, tipo cuia, fala baixinho e com graça, fazendo-me perder no labirinto de suas expressões. Primeiro sorri delicadamente, depois mexe nos cabelos e me olha com tamanha profundidade nos olhos.

Rendo-me ao olhar penetrante de Lídia, e com os efeitos sedutores da bióloga, tomo a iniciativa, dando-lhe um beijo desesperado e cheio de desejos.

O resultado foi uma noite interminável, quente e prolongada, no apartamento da bióloga.

Jamais vou esquecer daquela cena maluca e deliciosa, quando nos arremessamos feito crianças na cama ampla, rolamos para várias direções enquanto nos beijávamos gulosamente. E depois labidas, sussurros, vaivém com gemidos e gozos intermináveis.





***


Aquele final de semana fora sublime como vários outros que se passaram. Eu estava completamente enlouquecido pela bióloga. E o meu itinerário constante, durante meses, de sexta-feira a domingo, foi de Porto Alegre à Florianópolis e vice-versa.

O tempo foi passando e a rotina tomou conta de nossas vidas como um vendaval devastador.

Nossos encontros passaram por uma fase tempestuosa. Discussões como relâmpagos em total perturbação. Parecia que tudo que era bom e intenso, havia acabado.

O vento vinha sussurrando a ausência e a distância. As reminiscências dos melhores e inesquecíveis momentos que passei com Lídia se alojaram dentro do meu peito, e a saudade era tremenda que me deixava completamente melancólico. Eu estava apaixonado pela bióloga e a queria ao meu lado.

Depois do temporal, a chuva mansa e fina trouxe uma esperança. O telefone tocou. Era ela, Lídia. Aquela voz doce e encantadora, foi mudando, ficando rouca, até ela começar a chorar. Depois do pranto ela conseguiu conter-se para dizer que precisava de mim, que me amava, que minha passagem já fora reservada antecipadamente, e que me esperava no Aeroporto de Florianópolis.

Era sexta-feira. Não pensei duas vezes. Arrumei minha mala, peguei uns livros – já que eu e Lídia tínhamos o hábito de ler, um para o outro, contos ou romances –, e fui direto ao Aeroporto Salgado Filho.





***


Volto no voo 01647 com as mais belas lembranças. O amor da mulher-pimenta, a minha pimentinha ardente. O corpo todo eletrizado, e as palvras de Lídia dançam em minha mente:

“Nós temos altos e baixos, meu amor”, “temos que trabalhar o desapego” e “o que importa é que nosso amor é lindo...”

Pego da pasta o livro de Florbela Espanca. A página apresenta um marca-página dourado. Leio do poema as duas últimas estrofes, e escuto a voz distante de Lídia recitando: “Passei a vida a amar e a esquecer./ Atrás do sol dum dia outro a aquecer/ As brumas dos atalhos por onde ando.../ E este amor que assim me vai fugindo/ É igual a outro amor que vai surgindo,/ Que há-de partir também... nem eu sei quando..."

Uma pequena lágrima se desprende dos meus olhos e seguida daquela, outras e mais outras vão caindo e percorrendo as faces, o nariz e a boca, dando cabo do itinerário na saliva. Molhei a página do livro. Florbela Espanca e Lídia mexeram comigo.
Decidi aceitar as inconstâncias da vida e ter Lídia, não como uma mulher, mas como todas as mulheres numa só. Assim, eu posso perder uma Lídia e encontrar outra Lídia na mesma pessoa, e em estados de espírito distintos. Para que isso seja real, preciso compreendê-la e conquistá-la sempre. Eu e Lídia, então, seremos os artistas do espetáculo da vida, vivendo as mais inusitadas fantasias.

sábado, 8 de agosto de 2009

A Gata de Botas


"Não vemos as coisas como elas são,
mas sim como nós somos."
Anaïs Nin

Estávamos no Bar Chopp Naval bebendo a exótica Barrolda (elaborada com zimbro e destilados) e comendo bolinhos de bacalhau com pimenta. De vez em quando Bianca olhava para os quadros das paredes, as fotografias de gente famosa e retornava os olhos para mim.

Era um olhar que falava mais que palavras. Era provocante.

Nos lábios, o batom vermelho insinuante. Pele morena e de óculos. Os cabelos escorridos nos ombros. As botas de salto alto e cano longo. Sedutora.

Terceira Barrolda e a reciprocidade do nosso olhar. Somos todo desejo. E falo com ela de desejo, paixão e fantasia. E nestas circunstâncias de um final de tarde de Porto Alegre, anseio sentir o mais profundo prazer com Bianca.

“Estou com vontade de beijar todo o teu corpo e...”, eu disse pra ela.

Pausa. Depois tomei o restante da quinta Barrolda.

“Quê mais?!”, ela sorriu maliciosamente.

“Tudo”, eu disse. Já não aguentava mais. Ela continuou sorrindo. Sempre sorria. Estava feliz. Estávamos felizes.

“Vamos pro motel”, eu falei com tanta vontade.

“Agora?” Ela pergunta como se eu precisasse convidar ou argumentar várias vezes.

“Sim... Motel...”

Saímos do Naval. Tomamos um táxi direto para o Motel Botafogo.

***

No Botafogo, enquanto eu ia ligando o ar quente e colocando um som pra gente escutar, Bianca foi ao banheiro. Quando voltou fiquei deslumbrado ao ver aquela Gata de Botas em que Bianca se transformara.

Felina. Sutiã, calcinha, rabinho, focinho, tudo de gata. E com aquelas botas de salto alto e cano longo. Desfilava pelo quarto miando como uma gata no cio.

Fiquei completamente louco. Fora de controle.

Ela me empurrou pra cama.

“Fique quietinho aí que vou desligar nossos celulares”, ela disse saindo imediatamente dali.

Voltou com o meu celular na mão, sem a fantasia de gata, gritando, xingando...

“Quem é essa vagabunda?” Ela perguntou com raiva.

“Que vagabunda, meu amor?” Eu quis saber.

“Essa tal de Laura.” Ela disse com um olhar sagaz.

“É a estagiária lá da firma. Eu sou o chefe dela. Eu já te falei sobre isso, esqueceu meu amor?” Eu disse querendo convencê-la de que não tinha nada de mal nisso.

Eu e Bianca ficamos desfiando aquele rosário de interjeições. Então me aproximei dela, a abracei com ternura, esfreguei meu rosto no rosto de Bianca e senti a lágrima salgada nos meus lábios. Beijei Bianca intensamente. Ela quase não conseguia respirar.

Depois daquele beijo, Bianca levantou da cama e foi ao banheiro. Voltou com a fantasia de gata e sorriu.

“Vem minha Gata de Botas, vem...” Eu disse, já deitado na cama, com as luzes de boate em volta.

“Que mais que eu sou?”

“Minha boceta de botas”, eu disse.

Bianca veio e foi uma loucura. O coro de gritos como pano de fundo e sonoplastia. E posições e gemidos e Kama Sutra e Gata de Botas e Boceta de Botas e Meu Tesão e Minha Fêmea e Meu Macho e Secreções e Substâncias do Amor, Meu Amor, Meu Amor, Nosso Amor...

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Diabo Manco, o sedutor

para Charles Bukowski




Aumento o passo para alcançá-la. Ela entra no ônibus. Faço o mesmo. Ela olha pra trás. Disfarço, finjo não vê-la.

O ônibus para e os passageiros descem. Ela desce, eu desço. A passos lentos, não percebe que está sendo seguida. Dobra a esquina...

Faço um esforço danado pra me aproximar dela com essa perna manca.

É noite, a rua mal iluminada, ela não tem a noção do perigo. Não sabe que o Diabo Manco está em seu encalço.

Ela para na frente do edifício Mozart e pega a chave da bolsa.

Arrasto a perna defeituosa com dificuldade como se fosse arrastar uma tonelada naquela perna.

Ela abre o portão de entrada do edifício. Controlada pelo pensamento do Diabo Manco, deixa o portão aberto. Mais uma fechadura. Essa também fica aberta.

No corredor...

Segue até a quinta porta. Outra chave. Entra e não fecha a porta. Entro também.

Tapete vermelho e uma mesinha no centro. Na mesinha um incenso queimando. Quadro de Salvador Dali na parede.

Deitada no sofá. Fascinante. Sem blusa e sem sutiã. Saia curta acima do joelho. Toma um susto ao ver-me diante dela.

É você Byron?, pergunta um tanto fascinada.

Sou o Diabo Manco, digo.

E o que você vai fazer comigo? Me matar? Me violentar? Dar alguns bofetões e me chamar de puta? ... Por favor, me xingue, me violente, me bata com força, quero morrer em seus braços, ohhhh Diabo Manco!

Avanço pra cima dela. Prendo-a nos meus braços. Cambaleamos feito bêbados e caímos sobre o tapete vermelho. Ela oferece seu lábios úmidos...

Ataco. Um, dois, três... golpes fundos.

Ela grita... Estremece e relaxa. Relaxo também.

Guardo o punhal.

Sou o Diabo Manco!