sábado, 20 de agosto de 2011

O retorno


Diante do portão gradeado, aperta com força o molho de chaves que se avoluma na mão direita. Antes de separar a chave do portão, olha para o alto. As nuvens e o céu são sombrios e escuros. O vento bate nas árvores, derruba as poucas folhas que ainda restam.

Anoitece. A paisagem é triste.

Dois giros com a chave na fechadura, a mão toca o trinco enferrujado e o portão range. Os passos acompanham as batidas do coração e o frio na barriga. A porta de madeira, depois de anos fechada, fica escancarada.

Estático, no corredor da casa, tenta ouvir diálogos de outrora. Nada. A ausência de ruídos é total e profunda. Bate palmas, força uma tosse, um pigarro. Precisa quebrar aquele silêncio aniquilador. Olha em volta e vê na meia-luz – que a porta aberta proporciona, através dos postes de luz das ruas – os móveis intactos, exatamente como nos tempos em que ali vivia.
A porta é fechada e a escuridão toma conta da sala de estar. Tira do bolso um isqueiro e o aciona. Caminha com a pequena chama em direção ao castiçal postado à mesa. Acende as velas e um foco de luz se abre, iluminando o ponto que denuncia objetos de longa data, espalhados no tampo da mesa.
Fecha os olhos e inspira profundamente o ar da sala. O ar é fechado, velho e escuro. O ar mofado atiça a memória. As imagens e os pensamentos povoam a mente por um longo tempo.
Abre os olhos. Mira a luz de velhas derradeiras. As mãos deslizam na mesa e sentem folhas de papel amassados, lápis, cadernos e livros que trazem da infância as lições de casa.
Nas reminiscências um pai supervisiona as atividades escolares e um colo de mãe afaga um menino na beira da cama, antes de dormir.
O corpo ainda na cadeira. Corpo inerte e coração com batidas fortes e descompassadas. Agora os dedos que descansavam no tampo da mesa deslizam para as pernas e seguem para o bolso.
No bolso os dedos recolhem uma fotografia e retornam o caminho anterior, apertando o papel, sentindo a textura.
Os olhos compenetrados na imagem. Na foto um homem e uma mulher com uma criança no colo, parecem estar muito felizes. Os olhos, antes vidrados, começam a ficar marejados de lágrimas e o foco da luz de velas vai morrendo até a completa escuridão.
A fotografia é guardada no bolso. As mãos vão tateando as paredes acompanhando o caminhar compassado até a porta.
As mesmas mãos que tocaram os trincos e as fechaduras enferrujadas e os mesmos pés que o conduziram àquele local, dobram a esquina e desaparecem.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Diante do espelho

No banheiro do consultório médico, lavo o rosto e fico um longo tempo diante do espelho.
Vejo um homem cheio de agonia e dor. O espelho imita o sofrimento do homem como a arte imita
a vida.


Nascimentos, casamentos, óbitos...
Documentos em folhas de papel e um filme com cenas de tudo o que viveu até agora.
E o famoso túnel com a luminosidade ao fundo...


Fecho os olhos por um tempo e os abro para acreditar que no espelho há um sorriso e uma boca que diz: "trocaram o prontuário médico..."




segunda-feira, 5 de julho de 2010

Na cidade grande



Homem e mulher são os protagonistas. O espaço é a cidade grande. Os dois têm o passado em comum e tudo para colocar a perder. Ideias e atitudes estúpidas.



18h00. Ele sai do trabalho furioso, não era aquilo que ele queria. Nunca pensou em trabalhar naquele ramo. Muito incômodo, e além disso, não compensa. Muitas despesas. Antes de pegar o carro, compra umas cervejas em lata no supermercado, ao lado da firma.


Bebe três latas antes de ir ao estacionamento. Entra no carro e liga o som. Abre outra cerveja. A música o faz lembrar de quando morava no interior e se reunia na garagem de casa para ensaiar com a banda. Toma os últimos goles, baixa o som e dá partida no automóvel.


Dirige sem pressa na avenida movimentada. Parece estar mais calmo. Porém relaxa por pouco tempo. A música da faixa seguinte do cd o faz vibrar. Tem mais recordações: os agitos, as loucuras com os camaradas, quando subia o morro – dois anos atrás - para buscar o pó. Para na sinaleira. Decide mudar o itinerário.


***


17h35. Ela acorda, coloca uma música no microsistem no volume máximo e vai ao banheiro tomar uma ducha. Enquanto lava-se bem, fecha os olhos e lembra de quando morava no interior e odiava morar lá. Odiava a família. Recorda que um dia dissera a mãe que saíria daquela bosta de cidadezinha, que seria uma modelo famosa e ganharia muito dinheiro. Termina o banho, seca o corpo e, daqueles pensamentos surge uma ponta de melancolia.


Caminha pelo apartamento. Remexe gavetas à procura dos papelotes. Vai aos armários, ao guarda-roupa. Nada. Abre a bolsa e a vira na cama. Nada. Um leve desespero. Corre para estante e pega a garrafa de uísque e enborca direto num longo gole. Volta às gavetas e encontra três papelotes. Abre-os avidamente e faz grossas carreiras sobre tampo de vidro da mesa.


Fissurada. Veste a calcinha. Uma carreira. A minissaia. Outra carreira. Tamanha fissura que, entre uma e outra carreira do pó, veste-se para o trabalho.


Avenida movimentada. O táxi para no semáforo. A mulher está agitada, parece um rádio. Pede ao taxista para mudar o itinerário.


***


Não era aquilo que queria para a sua vida, pensa o homem quando muda de ideia, já estava no beco, próximo à boca do Julião, para pegar a droga.


Dentro do táxi a mulher está eufórica, enlouquecida por mais e mais doses de prazer, esquecera dos clientes da casa noturna. Os clientes que bancam o apartamento, as roupas da moda e a cocaína.


Tudo a perder. Tudo. Não tem mais volta. Nem arrependimentos. Taratatatatá. O tiroteio começa no morro. Taratatatatá. Como os fogos de artifício na virada do ano.



sexta-feira, 4 de junho de 2010

Olhares perros


Debaixo de um sol escaldante, sinto o bafo quente do asfalto no rosto e uma dor de cabeça dos diabos. Os sapatos apertados. Buzinas intermináveis acionadas por gente neurótica.

Calor insuportável. Enquanto percorro a gigantesca escadaria da Borges de Medeiros, os pensamentos invadem minha mente. Penso em tirar os sapatos e lançá-los para longe dali, arrancar o paletó, tirar a camisa e ficar mais à vontade.
As escadas são intermináveis. Além dos pés inchados, as pernas doem muito. 
Buzinas, roncos dos automóveis, gritos e estrondos. No fundo dessa poluição sonora, um rosnado tão próximo. Olho para os lados e não vejo nada.
Subo mais lances da imensa escadaria sem olhar para os lados. Latidos de cães ferozes em meus ouvidos. E os sons  cada vez mais fortes.
Já estou na Duque de Caxias, em frente ao edifício Morzart. Um pouco perturbado, toco o interfone. Espero a voz de resposta do outro lado da linha. O mesmo ladrar de cães ferozes de antes. Tremo e suo frio. Segundos depois, a voz de um homem ordena subir.
Elevador. Um... dois... três... quatro...
O décimo oitavo andar está distante. Inspiro e tento recuperar o fôlego e me acalmar. Penso por um instante em desistir, e apertar o décimo sétimo e descer. Ainda há tempo. Estico o braço esquerdo, mas não tenho coragem prosseguir a ação. Solto o braço, que fica como chumbo, abandonado, encostado na cintura. Fico estático até o elevador parar no décimo oitavo andar e abrir.
Passos hesitantes no corredor e desconforto. O coração acelerado e aos pulos. Dificuldade para respirar. Direciona-me ao cento e dezoito. Inspiro o ar longamente e o liberao aos poucos... Suspira... Olho para o número da porta, conto até três... Inspiro novamente e solto o ar com rapidez. 
Tomo coragem e, ao mesmo tempo em que aciono a campainha, a porta se abre e de dentro do apartamento surge um cão de raça e feroz...
Nenhum ruído desta vez. 
Apenas os meus olhos e os do cão  se encontram.Olhares perros.

domingo, 30 de maio de 2010

Shakespeare, tragédias, amores

Econtrei Bianca imóvel na cama. Estava com os olhos estáticos, direcionados a um ponto fixo na parede. Não falava nem se mexia. Parecia estátua. Virgem pálida.

Sentei na beirada da cama e os meus pensamentos e levaram ao passado.

Foi no intervalo da faculdade. Eu estava indo à biblioteca, pensando nos livros que precisava pesquisar.

Distraído, esbarro numa notável menina.

Peço desculpas.

Olho com atenção para a vítima desse incidente. Vejo que está está calma e sorri para mim. Parece uma menina de uns quinze anos. Saia azul-marinho, blusa branca, meias três-quartos.

Torno a me desculpar.

Ela diz que tudo bem, que às vezes estamos no mundo da lua.

Risos.

Nossos olhares se encontram.

Perco-me nos seus olhos azuis.

Ela se apresenta como se estivesse respondendo a uma entrevista:

- Bianca, 19 anos, signo de leão, faço artes cênicas.

- Dalton, 29 anos, dublê de poeta, empresário e estudante de direito, falei, entrando na brincadeira.

Fui arrebatado pela beleza de Bianca. Atingido pela seta de Cupido. Penetrou na alma. Feriu. Infeccionou. Fiquei doente. Pela primeira vez me apaixonei de verdade.

Nunca mais consegui esquecer a bela Bianca. Todos os momentos que passamos juntos. No teatro, os ensaios nos quais eu ficava impaciente e com um torturante ciúme quando ela representava cenas íntimas.

A primeira vez que nos beijamos. Foram beijos de sugar a vida.

Nossos longos passeios pelos cinemas e barzinhos. Nossos piqueniques românticos. Jantes à luz de velas. As cartas de amor que ela me escrevia. Os poemas que eu fazia para ela.

Amei Bianca intensamente. Tanto que não percebi horas, dias, meses, anos, décadas que se passaram. Amor intenso...

Agora Bianca estava ali, linda como sempre. Sem mover um só músculo, naquela cama. O nosso ninho de amor.

Minha adorável Bianca! Não diz uma única palavra. Sem mover o maravilhoso sorriso nos lábios.

Está gélida, tesa, inerte.

Com minhas mãos trêmulas, pego Bianca nos braços.

Fale comigo, meu amor!

Shakespeare. Tragédias. Amores.

Somos tão jovens para dizer adeus...

Shakespeare. Tragédias. Amores.

Shakespeare martelando minha cabeça. Abandone-me solidão, quero meu amor de volta. Shakespeare. Tragédias. Amores.

Mil imagens em minha mente e a cabeça latejando sem parar.

Shakespeare. Tragédias. Amores.

Saio do quarto e em poucos minutos retorno com o revólver na mão.

Shakespeare. Tragédias. Amores.

Vou encontrar meu amor...

Despenco dilacerado. Começa a ficar escuro...


quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Tatuajes en mi cuerpo

Aguardo que vuelves del trabajo para decir que te quiero. Invitarla al bar donde leemos nuestros autores elegidos y tomamos cerveza y fumamos narguile y a veces nos quedamos un poco borrachos.

Los recuerdos de nuestra historia no es sencilla, pero notable. Yo sé que leerbesarleer es nuestro lema. Mientras, tenemos siempre el antes y después. Yo me gusta lo que está entre el antes y después.

Recuerdo la primera vez cuando llegaste, eres un ángel caído del cielo. No necesitábamos de “ese es Júlio” y “esa es Maga”, supimos todo. Nadie dijeron. Saber sin saber, con sonrisas y miradas.

Nuestro encuentro en la noche. Un baño rápido y un táxi na esquina. Llegué antes, y tu venías con sonrisa muy lindo y una impresionante mirada. Abrazos, cumprimentos y besos en la mejilla. Y cervezas y miradas penetrantes. Y diálogos a respeto de autores y obras y peliculas. Y imaginaciones.
Una lluvia tranquila en el fin de la noche. Y una calle mojada y besos mojados fuertes y salvages. Saliva y lluvia.Tu bello vestido negro mojado. Besos y carícias. Y tu siempre linda.

En apartamiento viño, carícias y Chico Buarque. Recuerdo que habías mordido mi cuerpo dejando señal como tatuaje, y lluego hicimos el amor en el sofá de la sala.

Tu venias siempre con los dientes, haciendo más tatuajes en mi cuerpo. Estabas muy salvage.

Ahora estoy sólo y aguardo que vuelves del trabajo para decir que te
quiero.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Desliguei Zé Ramalho e saí

Conheci os inferninhos de Porto Alegre através do Oberdan, um estudante de educação física. E foi o personal barriga, aquele pançudo, quem nos apresentou esse cara.
Bebíamos num quarto da Ceuaca. Quando acabou a cerveja, fomos direto para os tais inferninhos. Oberdan escolheu a boate Metrópolis. Era amigo dos porteiros. Entrada franca garantida.
Naquele lugar não dava quase pra se mexer. Mas o bom disso é que tinha mulheres gostosas e grupo de garotas dançando de forma desvairada. E algumas de amassos com uns caras com pinta de pagodeiro.

Pra chegar até a copa foi uma eternidade. Daqui não saio, pensei.
Entre um gole e outro de cerveja, trocava olhares com as garotas. As acompanhadas me encaravam com malícia provocadora, mas eu fazia de conta que aquilo não era comigo. As putas estavam com seus machos e davam mole pra mim. Eu não queria apanhar dos homens delas.


Com o tempo não tínhamos mais cerveja, tampouco dinheiro pra pedir mais. Oberdan foi beber como alguns conhecidos dele. Fiquei ali, observando as mulheres.
Uma negra daquelas turbinadas olhou pra mim e sorriu convidativa. Entrei de sola, como dizem no futebol.

Bebi por conta do irmão dela. E vez em quando eu apalpava e dava uns beijos naquela gostosa.


Eram seis da manhã e já estavam fechando a Metrópolis. Eu tentei convencer a negra para ir comigo lá pra Ceuaca. Eu queria levar a mulher para o quarto do Oberdan, mas ela não quis ir. Sugeriu que fôssemos a um motel da Bento Gonçalves.
E não vai se acostumar, ela disse. Descemos do táxi em frente ao motel Magrife. Quando estávamos na portaria ela tirou o cartão de crédito e passou naquelas máquinas. Cartão inválido. E agora?, perguntei. Eu tenho dinheiro comigo, ela falou com orgulho. Ela confere na carteira o dinheiro. Tira uma nota de cinquenta. Treze, disse o porteiro. Quarto número treze. Era um dos quartos mais vagabundos e baratos daquele motel. Ao lado da cama, uma mesa de cabeceira com um microsystem do Paraguai em cima. Liguei o som e me joguei na cama. Zé Ramalho... Estava tocando a música “Entre a serpente e as estrelas.” Ela ficou ali em pé diante da cama me olhando, enquanto Zé Ramalho cantava.


“... e ninguém tem o mapa da mulher.../ ninguém sai com o coração sem sangrar, ao tentar revê-la...” O que é isso, mulher?, perguntei. “... um ser maravilhoso entre a serpente e a estrela...” Pare de chorar!, eu disse num grito. “ ... e os dois lado a lado, corroem o coração...” Já disse para parar de chorar e vir pra cama! “... não existe saudade mais cortante que a de um amor ausente...” Vem pra cama e dá uma chupadinha... NÃAOOO!!! Ela passou a manga da blusa no rosto para enxugar as lágrimas... Então bate umazinha pra mim, pedi. Ela olhou com raiva pra mim e chegou a cuspir no meu rosto ao falar essas palavras: VAI TE FUDER, SEU FILHO DA PUTA!!! Saiu do quarto e bateu a porta. Desliguei Zé Ramalho e saí.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Ele sentia a vida pulsar em várias direções

"o caminho do crime o atrai
como a tentação de um doce
Era tido como um rapaz,
foi quem foi..."
(Rubro Zorro - Ira)



Mil novecentos e setenta e seis. Nasce no verão quente de janeiro um grande experimentador da vida: Ederózio. Fez de tudo. Teve muitas mulheres. Porém manteve um relacionamento conturbado com uma manicure chamada Nice.

Ederózio e Nice viveram por muitos anos entre o amor e o ódio. Amavam-se intensamente, porém as brigas rotineiras, os escândalos que perturbavam a vizinhança, fez com que ele colocasse um ponto final no relacionamento.

Ele sentia a vida pulsar em várias direções. Não queria parar. O negócio dele era o seguinte, viver o dia como se fosse o último, mesmo que com consequências drásticas.

Num dia como qualquer outro, Ederózio briga com o pai – único parente vivo – por ressentimentos que guardara consigo desde a infância. Depois de colocarem os podres para fora, o velho tem um ataque fulminante e morre.

Já estava de saco cheio mesmo. Resolveu esquecer de vez os problemas familiares, o amor louco que tivera por Nice, e viver a vida do seu jeito.

Desempregado, sem dinheiro para pagar o aluguel do apartamento, e sem gasolina no Opala Diplomata. Em contrapartida, Zé Carlos e sua Garagem Gigante, facilitaram a vida de Ederózio.

De noite, era o gato pardo, que fazia e acontecia. De dia, virava uma espécie de vampiro no banco de trás do Opala Diplomata. Assim era a vida de Ederózio, até que sua vida pulsou pra valer...

Wolverine e os X-Men, Incrível Hulck, o mascarado Fantasma, O Cobrador, o Velho Safado e todos os seus sonhos, todas suas histórias e leituras e filmes reviravam-se em seus pensamentos agora.

Com dinheiro no bolso, e mais no porta-malas e o tanque do Opala Diplomata cheio, o coração a mil, Ederózio pisava fundo. Cento e dez, cento e vinte, cento e trinta, cento e cinquenta, cento e oitenta, ele sentia a vida pulsar em várias direções. Mas agora ali dentro do Opala só tinha uma direção, o túnel escuro. E ele pisava tudo que dava e num instante fechava os olhos e deixava-se seguir. Desse o que desse.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Você não vai trazer ela de volta

O dia amanheceu e os dois aproximam-se do quarto, encostam o ouvido à porta. Escutam que Jean está acordado.
Um deles bate e insiste para Jean abrir.

"Isso é besteira. Há cinco dias está trancado nesse quarto, precisa parar de beber, carece de ajuda. Se continuar assim vai adoecer e complicar ainda mais as coisas, e você não vai trazer ela de volta."
Jean sente solidão, angústia.

Eles não vão desistir, querem que Jean saia do quarto.

Jean tem vontade de gritar.
Batem mais uma vez na porta.

Por um instante, total silêncio...

Os dois dão um tempo, pensam possibilidades de tirar Jean do quarto. Saem e em vinte minutos retornam com um chaveiro. E o homem com chaves de vários tamanhos abre a porta em menos de cinco minutos.
Sem forças Jean desaparece com as últimas palavras:

"Você não vai trazer ela de volta..."

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Minha Ilha

Ontem reli Kafka e chorei. Não consegui segurar as lágrimas que iam me escapando. Aproveitei e fugi para a minha Ilha. É solitário, angustiante às vezes, mas na minha Ilha há reminiscências de outros tempos. Tenho um acerto de contas para fazer e preciso pensar, localizar melhor os fatos passados. E as atitudes.

Sozinho na minha Ilha. Sinto um buraco no peito. Enquanto isso, milhares de imagens invadem minha mente.

É Natal. Uma criança de três ou quatro anos, a mãe e os irmãozinhos esperam avidamente pelo pai que está longe de casa há dias. O pai retorna à casa com presentes para as crianças. A criança de três ou quatro anos ganha uma cadeirinha cheia de doces e com a seguinte frase talhada na madeira: “Eu sou do papai.” A criança de três ou quatro anos fica imensamente feliz e agarra-se aos pés do pai que a empurra para o chão e vai para o quarto com a mãe. A criança de três ou quatro anos fica chorando, sentada num canto da sala, enquanto as outras crianças pulam e divertem-se com seus presentes. O pai e a mãe permanecem por duas horas no quarto e depois saem. Ele despede-se de todos e diz que vai ficar fora por uns tempos.

Nenhuma data precisa. Apenas dias e anos significativos. O menino anda solto, livre em suas peripécias. Banha-se na sanga, localizada nas terras do Chimitão. A água é poluída, mas sente-se alegre e faz festas com os dejetos do córrego. Jogos de futebol no campinho e surra durante o jogo. Nariz sangrando. Em casa, mais surra e vergões na bunda e nas costas. O menino está sendo levado pela irmã maior à casa da tia. No caminho, ao atravessar a rua, o menino solta-se das mãos da irmã e é atropelado por um Monza. É levado ao hospital e fica bem. Ganha uma bola de futebol do homem que conduzia o carro que o atropelou. Logo poderá jogar futebol com sua bola nova, sozinho, sem apanhar.

O menino está crescendo. Quase um homenzinho. Depois de anos o pai aparece com um tio. Traz consigo uma caixa de ferramentas para construir uma peça de alvenaria. O pai permanece na casa por uma semana, ajudando o tio na construção. O menino se encanta com as ferramentas. Aproxima-se aos poucos dos homens com uma inifita curiosidade.

“Sai daí guri, vá brincar em outro lugar”, diz o pai com rudeza para o filho. O menino continua do mesmo jeito ali, como que hipnotizado pela peculiaridade daquelas ferramentas.

“Sai daí guri!” O menino não entende nada de horizontais ou verticais, ou medição de distância, mas pega um prumo e começa a brincar. Suspende pelo cordel o peso de formato de peão. Depois senta no chão de terra vermelha, olha por um longo tempo o peão e vê que tem uma rosca. Abre o peão e tira os chumbinhos de dentro. O pai vê o que o menino faz e se enfurece. Grita com ele e, em seguida, desfere-lhe pontapés com ira. Apanha do chão uma espia de aço e a faz de chicote. Três ou quatro chicoteadas nas pernas e na bunda do menino até verter sangue. As pernas e a bunda, com o tempo, cicatrizam. A raiva do menino pelo pai, não.

Todos velavam o pai com tamanha tristeza e desespero. Não era nenhuma capela, mas o ínfimo galpãozinho dos fundos da casa. As meninas choravam. A mãe e os tios também choravam a perda daquele homem. O menino, não. O menino apenas sorria. As cobras, dentro do caixão, enroladas no pescoço, pernas e mãos do pai. E o menino sorria. Achava o pai lindo, dentro do caixão.

Me dou conta de que estou na minha Ilha, e nada fiz para mudar a situação. O buraco do peito continua. Parece maior. Tenho medo. Preciso me organizar, planejar a memória. Tenho medo que o vendaval venha mais intenso. Tenho medo. E culpa. Do abraço terno que espero desde a infância. Tenho medo das tortas relações e decepções. Tenho medo de me tornar um Gregor Samsa. Medo da imobilidade. Da Metamorfose.

Descobri que na minha Ilha não existe culpa. É nela que posso criar aquilo que gosto, que imagino e o que desejo.

Olho para o mar que rodeia a minha Ilha e digo num tom de despedida as palavras de Kafka: “ ...Eras para mim a medida de todas as coisas...”

domingo, 8 de novembro de 2009

Juntitos lunes, martes, miércoles... pero el sábado nos encanta siempre



Sábado 10 de enero. Tu venías tan deslumbrante despacio en mi dirección. Me llamó la atención ya de lejos por la sensualidad de caminar y su piel morena. Cuando estaba cerca pude veír la sonrisa sorprendente. Tus ojos pequeños y de muchos secretos me fascinaron.

Fuimos presentados. De pronto olvidé mi timidez que jamás tuve, para invitarla a salir. De pronto nos conocemos más, mucho más. Nuestros gustos: literatura, cine, teatro, gastronomía, los bares, los besos, la noche y la luna.

Fue en el sábado 10 de enero cuando empezó ese “carpe diem” de nuestro amor. Primero presentación – como ya dijo –, el encuentro en la Ciudad Baja y después en apartamiento con todas las locuras del amor poético, salvage, pero muy terno.

Y así las cosas ocurrieron con una vehemente energía. Besos y más besos, confesiones, decubrimientos, deseos, pimientas, salsas blancas, viños, Cortázar, mate, leer-besar-leer...

Con leer-besar-leer nos fuimos más adelante. Tenemos noches de insomnio, carícias, secretos y fantasías, y hacemos el amor más precioso y bello.

Todo eso es una muestra del amor latente que nos mantenemos despiertos, teniendo un desenlace de nuestra história feliz. Por eso estoy de acuerdo con tus encantadoras palabras: juntitos lunes, martes, miércoles... pero el sábado nos encanta siempre.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Depois da janta

Nossos olhos se encontraram, depois os lábios. Ela abre os lábios para o beijo suave e rápido. A minha língua sorve o doce orvalho de sua boca. Jogo-a para trás e começo a percorrer o corpo dela com a minha língua. Itinerários em curvas e retas. Abre as pernas. Beijo os lábios ardentes como pimenta. Começo a lamber os lábios, trabalho com a língua ali por um bom tempo. Sinto os lábios tão ardentes quanto os da boca. Parece pimenta. Ouço os gemidos. Ela pede para penetrá-la. Entro no seu mundo, na sua pérola. Movimentos e malabarismos. Beijo-a e misturo os fluídos, enquanto, no vaivém, entro mais até ela gemer. Ela pede pra sentar. Senta e cavalga enlouquecida. E no vaivém estonteante, ela goza, e goza, e simultâneamente, inclina o corpo e morde o meu peito, arrancando pedaços de carne. Depois relaxa no meu peito e tenta lembrar dos nomes dos fortes temperos da janta.Chimichurri, gengibre, curry. E muita pimenta. Dos outros temperos não recorda o nome.